4 de fevereiro de 2011

Um pouco de poesia

Trechos do texto "Maquiagem"

Ela continua encarando. Como nos outros dias, deixa de lado possíveis todas as possíveis distrações e se concentra. Mira o olhar na pupila. Observa as nuances dos movimentos, das tonalidades. Se aproxima e, sem quebrar o ritual, pega o estojinho de maquiagem, mas ainda não o usa. Parece que a qualquer momento poderá ver a alma acenando lá de dentro, se não fosse tão escura a fenda no centro da íris...

Vai alterando a tonalidade das pálpebras e o pensamento agora não mais se concentra nas imagens refletidas. Esta parte é mais automática, mais subjetiva. E pensa em quê pensará ele quando a olhar. Porque sabe que não precisa ser dito nada, e sabe que sempre que desejar o encantará. E que saberá disso, mesmo no silêncio.
[...]

Ela torna a olhar para as pupilas. E para as maçãs e para os lábios. Será que todos perceberão que de uns tempos para cá algo mudou na sua vida? Não sabe o que deve ser, mas desconfia que é acreditar em si, e fundir diversas vidas em uma. Provar aos que duvidam da sua capacidade que tudo o que faz, além de possível, é gratificante.

Ela olha, agora, através do espelho, para a folha de papel que, há algumas semanas, deixara pousada sobre a bancada com a lapiseira enviesada, deitada, em posição de poema. Sabe que deve escrever. Sabe que um dom não se desperdiça, mas não sabe se é dom, de qualquer forma, seria melhor não arriscar. Mas nunca chega a poesia. O máximo que o grafite faz é um pontinho no papel. Cadê estímulo, cadê inspiração, cadê palavras, que já foram tão abundantes?!

Então a poesia sobre a mesa parece lhe segredar algo. Ela já entendia, já sabia, mas era necessário que houvesse um sinal. A verdade - tornava a olhar para a íris - era que a poesia agora era sua própria vida. Arrancá-la para um pedacinho de papel seria tão impossível, e tão intensa vinha sendo ela nos seus dias... Mas ela sorri novamente, enfim, pode afirmar com toda a certeza que é feliz. E pega o rímel para finalizar o ritual. [...]

O texto não é meu! É de Alessandra Gorayeb Martins, do blog Suspiro do Silêncio , e que por sinal tem textos maravilhosos e ultrafemininos.

Beijos!!

Um comentário:

Laura disse...

Que texto lindo!!!!
Adorei

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